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domingo, 14 de fevereiro de 2010

OS ANIMAIS TÊM RAZÃO


CORDEL DO GRANDE POETA ANTÔNIO FRANCISCO E PINTURA DO ARTISTA PLÁSTICO MARCELO MORAIS POSTADO POR JOSÉ AUGUSTO EM 14-02-2010.

OS ANIMAIS TÊM RAZÃO
1
Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.
2
E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.
3
O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito de independência
Do sertanejo que luta
Na frente da emergência.
4
Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel do retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.
5
E foi debaixo de um deles
Que eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
6
Isso já faz tanto tempo
Que eu nem me lembro mais
Se foi pra lá de Fortim,
Se foi pra cá de Cristais,
Eu só me lembro direito
Do que disse os animais.
7
Eu vinha de Canindé
Com sono e muito cansado,
Quando vi perto da estrada
Um juazeiro copado.
Subi, armei minha rede
E fiquei ali deitado.
8
Como a noite estava linda,
Procurei ver o cruzeiro,
Mas, cansado como estava,
Peguei no sono ligeiro.
Só acordei com uns gritos
Debaixo do juazeiro.
9
Quando eu olhei para baixo
Eu vi um porco falando,
Um cachorro e uma cobra
E um burro reclamando,
Um rato e um morcego
E uma vaca escutando.
10
O porco dizia assim:
– “Pelas barbas do capeta!
Se nós ficarmos parados
A coisa vai ficar preta...
Do jeito que o homem vai,
Vai acabar o planeta.
11
Já sujaram os sete mares
Do Atlântico ao mar Egeu,
As florestas estão capengas,
Os rios da cor de breu
E ainda por cima dizem
Que o seboso sou eu.
12
Os bichos bateram palmas,
O porco deu com a mão,
O rato se levantou
E disse: – “Prestem atenção,
Eu também já não suporto
Ser chamado de ladrão.
13
O homem, sim, mente e rouba,
Vende a honra, compra o nome.
Nós só pegamos a sobra
Daquilo que ele come
E somente o necessário
Pra saciar nossa fome.”
14
Palmas, gritos e assovios
Ecoaram na floresta,
A vaca se levantou
E disse franzindo a testa:
– “Eu convivo com o homem,
Mas sei que ele não presta.
15
É um mal-agradecido,
Orgulhoso, inconsciente.
É doido e se faz de cego,
Não sente o que a gente sente,
E quando nasce e tomando
A pulso o leite da gente.
16
Entre aplausos e gritos,
A cobra se levantou,
Ficou na ponta do rabo
E disse: – “Também eu sou
Perseguida pelo homem
Pra todo canto que vou.
17
Pra vocês o homem é ruim,
Mas pra nós ele é cruel.
Mata a cobra, tira o couro,
Come a carne, estoura o fel,
Descarrega todo o ódio
Em cima da cascavel.
18
É certo, eu tenho veneno,
Mas nunca fiz um canhão.
E entre mim e o homem,
Há uma contradição
O meu veneno é na presa,
O dele no coração.
19
Entre os venenos do homem,
O meu se perde na sobra...
Numa guerra o homem mata
Centenas numa manobra,
Inda tem cego que diz:
Eu tenho medo de cobra.”
20
A cobra inda quis falar,
Mas, de repente, um esturro.
É que o rato, pulando,
Pisou no rabo do burro
E o burro partiu pra cima
Do rato pra dar-lhe um murro.
21
Mas, o morcego notando
Que ia acabar a paz,
Pulou na frente do burro
E disse: – “Calma, rapaz!...
Baixe a guarda, abra o casco,
Não faça o que o homem faz.”
22
O burro pediu desculpas
E disse: – “Muito obrigado,
Me perdoe se fui grosseiro,
É que eu ando estressado
De tanto apanhar do homem
Sem nunca ter revidado.”
23
O rato disse: – “Seu burro,
Você sofre porque quer.
Tem força por quatro homens,
Da carroça é o chofer...
Sabe dar coice e morder,
Só apanha se quiser.”
24
O burro disse: – “Eu sei
Que sou melhor do que ele.
Mas se eu morder o homem
Ou se eu der um coice nele
É mesmo que estar trocando
O meu juízo no dele.
25
Os bichos todos gritaram:
– “Burro, burro... muito bem!”
O burro disse: – “Obrigado,
Mas aqui ainda tem
O cachorro e o morcego
Que querem falar também.”
26
O cachorro disse: – “Amigos,
Todos vocês têm razão...
O homem é um quase nada
Rodando na contramão,
Um quebra-cabeça humano
Sem prumo e sem direção.
27
Eu nunca vou entender
Por que o homem é assim:
Se odeiam, fazem guerra
E tudo o quanto é ruim
E a vacina da raiva
Em vez deles, dão em mim.”
28
Os bichos bateram palmas
E gritaram: – “Vá em frente.”
Mas o cachorro parou,
Disse: – “Obrigado, gente,
Mas falta ainda o morcego
Dizer o que ele sente.”
29
O morcego abriu as asas,
Deu uma grande risada
E disse: – “Eu sou o único
Que não posso dizer nada
Porque o homem pra nós
Tem sido até camarada.
30
Constrói castelos enormes
Com torre, sino e altar,
Põe cerâmica e azulejos
E dão pra gente morar
E deixam milhares deles
Nas ruas, sem ter um lar.”
31
O morcego bateu asas,
Se perdeu na escuridão,
O rato pediu a vez,
Mas não ouvi nada, não.
Peguei no sono e perdi
O fim da reunião.
32
Quando o dia amanheceu,
Eu desci do meu poleiro.
Procurei os animais,
Não vi mais nem o roteiro,
Vi somente umas pegadas
Debaixo do juazeiro.
33
Eu disse olhando as pegadas:
Se essa reunião
Tivesse sido por nós,
Estava coberto o chão
De piubas de cigarros,
Guardanapo e papelão.
34
Botei a maca nas costas
E saí cortando o vento.
Tirei a viagem toda
Sem tirar do pensamento
Os sete bichos zombando
Do nosso comportamento.
35
Hoje, quando vejo na rua
Um rato morto no chão,
Um burro mulo piado,
Um homem com um facão
Agredindo a natureza,
Eu tenho plena certeza:
Os animais têm razão.
Fim

16 comentários:

  1. Parabéns, Seu Moço, por trazer esta belíssima obra que trata o Reino Animal com respeito. Já sua fã, veja ali que sou sua "seguidora"... rsrsrs
    Deixo aqui a notícia pra vocês que este CORDEL está sendo muito escutado e muito aplaudido... ele nos foi apresentado durante nossa reunião da SVB aqui em Brasília.
    Somos da SOCIEDADE VEGETARIANA BRASILEIRA, grupo de Brasília e tudo que é POR AMOR AOS ANIMAIS tem nosso carinho.
    Grande abraço, Tanira = Gentileza gera gentileza... pela Paz.
    PARA NOS CONHECER, acesse: http://br.groups.yahoo.com/group/svb-bsb/

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    1. Gostei muito do seu pensamento, tem todo meu apoio,"POR AMOR AOS ANIMAIS"!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Em um encontro de comunidades alternativas em meio a floresta, mais de mil pessoas reunidas cantarolavam, tocavam, conversavam, e uma pessoa tirou do bosso um cordel velho e rasgado que guardava com carinho e recitou " Os animais tem razão"
    Durante o cordel, cada frase foi passada com carinho e a mensagem do poema foi motivo para muita reflexão na comunidade!
    Procurei aqui o cordel e achei para ler de novo e repassar...
    Gostaria de parabenizar pela obra.

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  3. Parabéns Antônio ontem mesmo 04/11/11 você visitou o colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM) e você deu autógrafos nos livros dos alunos do 4° ano minha neta estava lá mas não levou celular , câmera nem livro portanto não levou para casa seu altógrafo mas ela sim é sua fã...Se não estiver ou não conhece este site quero que mesmo assim os outros saibam como eu e minha neta somos suas fãs. Grata Dirce.

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  4. UM GÊNIO; UM TEXTO MUITO BEM ESCRITO,ENVOLVENTE,LIMPO,ENTENDEDORO UMA RIMA MARAVILHOSA,QUE TALENTO,ESSA CULTURA DO CORDEL NUNCA DEVE SE ESQUECIDA DEVIA FAZER PARTE DOS LIVROS DEDÁTICOS DESTRIBUIDOS PELO O MEC E EM TODOS OS NIVEIS ESCOLAR..PARABÉNS AO AUTOR...

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  5. Parabéns Sr.Antonio Francisco, participei do 7Seminario Potiguar "PRAZER EM LER" concluído hoje, dia 4 de junho de 2013, e voltei encantada com a sua sensibilidade, talento, carisma, simplicidade e... memoria! Sou professora de Historia da UFRN, aposentada, quando ouvi seu comentário de alegria ao ver o seu livro na lista de autores para o Vestibular, também fiquei muito feliz. Como você comentou, "prata da casa" não tem valor, um velho complexo de colonizado que ainda persiste, quem sabe um dia o Brasil tenha orgulho de sua identidade. Boa sorte e que Deus continue iluminando seus dias!

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  6. isso sim é que é inteligência. eu admiro muito o senhor. parabéns sou sua fã desde quando comprei seu livro em uma loja material de construçao la no nova natal

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  7. Adoro essa estoria ja edcutei porque minha filha apresentou na escola

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  8. gostei de mais e dessas coisas que o brasil preçiza

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  9. Parabéns a esse cordelista que sente na alma o que escreve.Continue espalhando educação e tocando o coração de muita gente com esses versos cheios de reflexões.

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  10. Parabéns Poeta Mossoroense, fico feliz por Deus ter lhe concedido essa dádiva, assim como vc eu também gosto muito de ler e escrever algumas coisas, um dia conversarems sobre esse assunto um forte abraço.

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  11. Parabéns! Este poema deveria ser divulgado com mais intensidade nas escolas. Gostei muito!

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  12. sao muitos poemas mas e bom

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  13. Qual a linguagem utilizada? E a intenção comunicativa?

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  14. Este cordel retrata a verdadeira situação, e realmente "os animais tem razão" Parabéns a este grande astro do Cordel

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