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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A História de Belém do Brejo do Cruz em Cordel-Poeta José Augusto, 'filho' e constuindo nesse chão. Foto principal- Edimilson.


DE GRÃO EM GRÃO BELÉM É CONTADO
1
Uns versos vou declamar
Que eu versei para Belém,
Dividir um bocadinho
Do pouquinho que me tem
Do trajeto de seu povo
Que há tempo lhe convém.
2
Lugarzinho ensolarado
Resistente, verdadeiro:
Tu és pequeno no mundo
Da Paraíba fronteiro,
Seu povo mais que danado
Muito vibra sem dinheiro.
3
É seu retrato fiel
O que aqui teve lição,
Modelo mais que sereno
Desenhado em canção,
Pois nada tira seu brilho
Nem perto de confusão.
4
Mas pra contar muitos fatos
Eu convido Basto Bento:
Homem vivido e sabido
Que conforme, o momento,
A vida dessa cidade
Será desde o nascimento.
5
-Pois bem! Disse Basto Bento:
- Me honro pelo chamado
Enquanto lembrar eu falo...
Que cada um seja lembrado
Pelo que fez nesta terra
E por Deus seja louvado.
6
Belém surgiu por milagre
Passou por muitas manobras,
Aqui não tem olho d’água,
Indústrias vestidas de obras,
Mar para lavar nossa alma,
E mata para criar cobras.
7
Tem um clima seco e quente,
O ano todo o sol brilha,
O vento derruba as folhas
Das algarobas e empilha
Na terra seca sem chuva
Que insulta, cala e humilha.
8
Chuva não cai todo ano
Só há rio intermitente
Restando só carrapicho,
Jurema preta e semente
De pega-pinto, maxixe
E político que mente.
9
Basto Bento também disse:
– O povo foi tendo vida
Quando comeu do seu pão
E pra cá logo convida:
Homens, meninos, mulheres...
Pra também ser revestida.
10
Donzelas d’outros lugares
Aqui estão pra florescer,
Umas lá do litoral,
Outras procurando ver
A mistura da beleza
Na esperança de crescer.
11
Mil oitocentos cinqüenta
Nesta terra em que está aí
Chega à família Viana
Que ainda hoje está aqui
Mostrando seus descendentes
Aqui, acolá e ali.
12
Nas mãos acolhe a terrinha
Sepulta nela semente
Que renasce redobrada
Comida pra muita gente,
Fazendo dela esperança:
Quem é sua confidente.
13
Gente e muita gente chega
Nenhuma fortuna traz,
Todas são interessadas;
Faz cerimônia em paz
Não sossegando até ver
Uma vila e muito mais.
14
Com Paulino de Morais
E José Alves Pereira
O povoado é erguido
Com casebre de taipeira
No mesmo lugar do sítio
Da família pioneira.
15
E como está no comando
Paulino de Morais manda
Que quem aqui chegasse:
Budista, cristão, umbanda,
É pra ter todo respeito
Por qualquer um dessa banda.
16
Pois José Alves Pereira
Bate o chapéu concordando:
Nesta terrinha que amamos,
Todos, eu quero estudando,
Formar-se na lei divina
O resto Deus vai deixando.
17
Negros, caboclos, mestiços...
Chegaram de toda parte
Do lado do Catolé
Antônio Pedro faz arte
Trazendo para Belém
Fé e uma bodega aparte.
18
“Minha avó contou um dia
Que ouviu de um tenente
Que na bodega prendeu
Um bêbado co’aguardente,
Por ter brigado com cinco
De todos quebrado dente.”
19
Como herança da bodega
Que o bodegueiro deixou:
Mil novecentos e vinte
Numa feira se formou
A maior e popular
Que o povo testemunhou.
20
Vinha gente pra vender,
Comprar e também trocar.
Mulheres vendem galinhas,
Homens vêm barba tirar,
Cortar cabelo do mês,
Beber mel, se embriagar.
21
Candinho Saldanha vendo
Todo aquele movimento,
Bota para funcionar
Alto beneficiamento
Do algodão produzido
Naquele povoamento.
22
Finda a década de vinte
Que a vida fantasiou
Entregando para trinta
A idéia que se formou,
De querer ser libertada
Desde que se iniciou.
23
Belém se tornou distrito
Legal de Brejo do Cruz,
Portanto logo em seguida
Muda para Bom Jesus
Cidade mais que sagrada:
Repleto de muita luz.
24
Mas Bom Jesus durou pouco,
Por ordem não sei de quem
No ano de trinta e nove
Celebra um dia de amém
Porque voltou a se chamar
Novamente de Belém.
25
A troca não pára aí,
E deram nome esquisito
De Topônimo Taiassuy,
Durando apenas um grito
Da lei do mês de janeiro:
Belém –, tornou a ser dito.
26
Em vinte e dois de dezembro
Da década de sessenta
Buquê do século vinte
Nossa cidade se senta
Na cadeira emancipada
Com a sua ferramenta.
27
Belém do Brejo do Cruz
É seu nome de batismo
Que permanece até hoje,
E com seu fácil fascismo
Seu povo tem pouca fé
E fé no politiquismo.
28
Nesta década cativa
A cidade libertava
Batom e beijo na boca,
Com suspiro se lançava
Ao cupido de setenta
Do amor ninguém escapava.
29
Setenta passa a oitenta
Apresentando dureza,
O povo sai ao ataque
Com toda a sua pobreza,
Busca matar sua fome
E devorar a incerteza.
30
A luz duma emergência
Contenta grande levante,
Condensa o sentimento
Co’a vida dura volante
Do homem olhando a sombra
Da tal miséria constante.
31
Como está na flor da mente
Dos limites vou falar:
Patrimônio cultural,
Filhos ilustres, lugar,
Da comida e boas festas
E para o Santo rezar.
32
Seus vizinhos são assim:
Ao leste Jucurutu
Que pouco temos contato,
Diferente de Patu
Que costumamos dá as mãos
Lá no sítio Tuiuiú.
33
Messias Targino ao Norte
E Janduís de Daluz.
Ao sul São José do Brejo
Depois de Brejo do Cruz,
Terra de Zé ramalho
Onde injustiça produz.
34
E fica a oeste daqui
A querida Catolé
Que nos mantêm informado,
Pois aplaudimos de pé
E por último citado
Campo Grande também é.
35
É tido como pequeno
Seu legado cultural,
Limita-se as Igrejas
Pra acabar com todo mal
De todos que acreditar
Que se salvará no final.
36
Logo depois o Sobrado
A mais velha construção
Que desejamos um dia
O tempo dá solução,
E das ruínas nascer
Um sobrado de lição.
37
E por último citado
Seu mais querido legado;
De todo costume e raça,
Cor, religião, ditado:
Que é o valor de se povo
Como maior bem amado.
38
Pra ser direto e simples
Da humildade vou falar:
Como de Lino Ferreiro
Que co’o ferro faz jorrar
As mais belas armaduras,
Torno e ferro de passar.
39
Carneiro, soldado exemplar,
Nunca levantou a mão
Pra ninguém desacatar
Fez do destaque lição
E por onde fez destaque
É chamado cidadão.
40
E corre solta a notícia
Com Darca e com Piedade,
Falam o que ninguém fala
E diz sem fazer maldade,
Mas aqui é perigoso
Quando se diz toda verdade.
41
Outra ilustre cidadã,
É Tereza Cababá
Que fez da Educação,
Educação a Vavá.
E deu lição a menino
Cuidando feito babá.
42
Foi com Raimundo Manduca
Que educação em Belém
Teve toque filosófico,
Pena que não tem ninguém
Bebendo daquela fonte
Que só ensinou para o bem.
43
Cônego José Viana
Pode-se também lembrar
Que não só nessa cidade
Fez do educar o lugar
Para todo sertanejo
Sua vida consertar.
44
Centenas são as pessoas
Ilustres dessa cidade,
Como não dá pra falar
De todos nem da metade
Da comida vou lembrar
Com toda minha vontade.
45
Quando se fala em comida
Nossa comida é forte,
Feijão de corda, cuscuz,
Desvia o povo da morte.
Coalhada e carne na brasa
Não deixa ninguém sem porte.
46
Para misturar mistura
Nosso povo não demora,
Faz bode com mungunzá
Que mata a fome na hora.
Canjica na rapadura,
Pamonha a fome devora.
47
Mel espremendo na mão,
Buchada de Dona Nira,
Leite do peito da vaca
Que em doce, biscoito vira.
Chouriço de porco gordo,
Queijo de Madrinha Lira.
48
Preá, tejo teve muito;
Rolinha, camaleão,
Tatu, peba, juriti
E de longe arribação
Que complementava a mesa
Mas estão em extinção.
49
Também está se acabando
O cantado do concriz,
Galo campina, cibito
Que há quem diz, fale e diz,
Só será um dia ouvido
Da voz de alguma atriz.
50
E pra menino danado
Ovo batido com juá,
Farinha, maxixe, coco,
Melado, maracujá,
Cajá, caju, papaconha
E rapa de jatobá.
51
Quando eu criança ouvia:
“Belém do Brejo do Cruz
Que de dia falta água
E de noite falta luz,
Na padaria de Salé
Só há pão boiado e cuscuz.”
52
Pois nem só de pão se vive:
Nesse chão também se brinda
Boa festa natalina.
E sendo a mais bem vinda,
Tradicional, popular
Quando todo o ano finda.
53
Tem a boate de Ridete,
A de Chico Joaquim,
A festa dos Concluintes,
Outras diversões sem fim.
E a junção de “João-Pedro”
Com forró, show e festim.
54
Quem vier seja bem vindo,
Mas tenha muito cuidado,
Porque se beber nossa água
Fica sempre apaixonado
E nunca mais lembrará
De como foi encantado.
55
A não ser que novamente
Retorno como um romeiro
Ao centro de macumba
De seu Zé Preto Pedreiro,
E lá se desencantar
Dançando no seu terreiro.
56
Quem não quer acreditar
Nessa simples melodia
Vá ver São Sebastião
Que Belém tudo vigia,
Vá à assembléia de Deus
E reze uma Ave-Maria.
57
Vá ao barraco de Altivo
Coma caldo, mocotó,
Cuscuz de milho fresquinho;
Só não se encontra mocó
Porque o homem matou todos
Desde o sul a Mossoró.
58
Vá ao riacho dos porcos
Que só tem água no inverno,
Mergulhe em suas lembranças,
Veja que seu leito é eterno:
Cura gripe e mal da língua,
Salva até gente do inferno.
59
Passei a mão na cabeça
Quando Basto terminou
Vi que nunca tinha visto,
Visto o que Basto contou,
Contou e cantou seu chão
Do fundo do coração
Que até doutor encantou.
60
- Muito obrigado Basto.
Eu disse por essa aurora
Pelo presente, presente,
Que servirá a toda hora
A quem interessar saber
Só é agarrar para ler
Esse conto aqui e agora.

Rerumo: são 105 estrofes.
Autor: José Augussto

8 comentários:

  1. Sou filho de dessa terrinha e que palavras gratificantes são essas haim?
    Parabens para o Autor.

    Aritana Almeida

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  2. Olá Aritana, tudo bom?
    Espere para vê um livro inteirinho só sobre nossa terrinha, onde nele terá: Foi um sonho bem sonhado, De volta pra Belém, A lenda de Federal, Conversa de pescador, As graças de Mané Forte etc...

    Um balaio de abraços...

    José Augusto...

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  3. para bens pelo seu trabalho cara

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  4. nossa encontreii por acaso, li e me apaixonei sou filha de belem ,e quem prova da nossa agua se apaixona ja dizia meu pai...
    ameii parabéns pelo seu trabalho gostaria de ler o livro completo onde posso encontrar?

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  5. Ele E Feraa Mesmo Gostei Muito Do Seu Trabalho

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  6. Boa tarde! Sou filho da terra e fiquei muito interessado sobre seu trabalho. Como faço para conseguir um exemplar do seu trabalho.
    Att, Edmilson Bezerra

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  7. Cidade linda que me ensinou tanto mesmo antes d' eu conhecer, foi dela que veio o amor do único que meu coração decidiu ser.

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